domingo, dezembro 17, 2017
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KORA AWARDS – Cultura e Música dos Países Lusófonos de África : Foco em Angola

Os KORA – ALL AFRICA MUSIC AWARDS iniciaram um foco sobre a Música e a Cultura dos Países Lusófonos de África .
Nesta semana convidamos cordialmente vocês a fazer a viajem conosco afim de descobrir  a Música e a Cultura do maior país lusófono de África : Angola 

Nas últimas décadas do controle colonial, Portugal encorajou activamente a produção e gravação de música de artistas locais. São criados os Estúdios Valentim de Carvalho, em Luanda, que apenas cessam a sua actividade em 1975. O resultado foi uma mini-indústria que, combinada com a excitação da liberdade que se antevia, viu nascer excelentes músicos e diversos estilos originais entre meados dos anos 60 até à Independência.

A música de Angola foi moldada tanto por um leque abrangente de influências como pela história política do país. Durante o século XX, Angola foi dividida pela violência e instabilidade política. Os seus músicos foram oprimidos pelas forças governamentais, tanto durante o período da colonização portuguesa, como após a independência. Ao longo dos anos, a música angolana influenciou também o Brasil e Cuba.

Luanda, capital e maior cidade de Angola, é o berço de diversos estilos como o merengue, kazukuta, kilapanda e semba. Na ilha ao largo da costa de Luanda, nasce a rebita, um estilo que tem por base o acordeão e a harmónica. Há quem defenda que o próprio fado tem origem em Angola.

O Semba, que partilha raízes com o Samba (de onde a palavra tem origem e significa umbigada), é também predecessor da Kizomba e kuduro. É uma música de características urbanas, e surge com das cidades, em especial com o crescimento de Luanda. À volta desta capital, criam-se grandes aglomerados populacionais, os “musseques”.

O “musseque” (expressão que em língua nacional Kimbudu significa « onde há areia », por oposição à zona asfaltada) é o espaço de transição entre o universo rural e a cidade.

A vivência quotidiana do musseque é a temática que predomina nas canções destas décadas: o filho desaparecido no mar, a garota deminissaia, o assédio sexual entre o patrão (branco) e a criada (negra), os conflitos conjugais, a infidelidade amorosa, a condição da lavadeira, o feitiço e o enfeitiçado, o lamento da infância e a concretização da praga anunciada. A primeira partitura conhecida data de 1875. Chama-se ”Madya kandimba” e conta a história de um europeu de amores com a sua empregada africana.

No musseque nascem as turmas, pequenas formações de músicos que tocavam no fim das tardes, ao pôr-do-sol. Os músicos faziam também parte dos grupos de Carnaval. São estas turmas os embriões da grande maioria dos grupos musicais angolanos que passaram a dominar musicalmente as cidades. Motivados por uma paixão pelos ritmos nacionais, a sua música integrou muitas vezes influências de estilos musicais de artistas congoleses, latino-americanos, entre outros.

Em bairros como o Coqueiros, Imgombotas, Bairro Operário, Rangel, e no Marçal vivia-se um ambiente intimista de preservação das músicas e tradições angolanas, marginalizadas pela dominação colonialista presente na época. O folclore dos musseques (bairros pobres) fascinam parte de uma geração de jovens lutadores de famílias humildes e resistentes, que resolve criar o seu próprio estilo musical, afirmando a especificidade da cultura angolana, numa época muito conturbada. O respeito e a admiração pela música, dança, provérbios e vivência tradicional das gentes, o interesse pela música tradicional e pela cultura suburbana enquanto divulgação dos usos e costumes da linguagem e cultura angolana são as linhas mestre das canções desta época. A música era para eles uma forma de lutar sem armas, era uma forma de resistência cultural.

Nos anos de 1930,1940 e 1950 destacou -se um nome Aurélio de Oliveira Neves conhecido por Voto Neves, fazendeiro e comerciante de sucesso, nasceu no dia 1ª de Dezembro de 1880, nesse dia era o dia da população ir votar dai a alcunha « Voto », foi tesoureiro da camara municipal de Luanda, músico e poeta, cantava músicas Africanas e portuguesas, tocava acordeão, viola, guitarra portuguesa, harmónica e sanfona, lia e conhecia música, compositor destacou – se na composição de um estilo a rebita, que tinha como base o acordeão e a harmónica foi professor, estudou o folclore Angolano, e o dialecto Kimbundu, foi um dos fundadores da Liga Nacional Africana, mecenas ajudou os músicos seus pares por quem tinha grande apreço partilhando também com estes os seus conhecimentos musicais.

O primeiro grupo a tornar-se popular, dentro e fora de Angola, foi a Orquestra Os Jovens do Prenda. Chico Montenegro foi um dos fundadores, de onde se destacam também Verry Inácio (percussionista), António do Fumo (vocalista), Zé Keno (guitarrista) e Cangongo (viola-baixo). O grupo foi fundado em 1966 por jovens residentes na comuna do Prenda, tendo como base instrumentos tradicionais de percussão e um violino. Fundado nos finais dos anos 60, os «  África Show  » foram o primeiro entre os grupos angolanos a introduzir o órgão no seu aparato de instrumentos. Esta alteração foi algo de inédito na época, pois a temática dos grupos não fugia do folclore angolano. O conjunto que nasceu na Associação da D.Filó, no bairro Indígena, município do Rangel, em Luanda, teve como fundador o músicos José Massano Júnior, e integrava ainda Zeca Tirileny, Tony Galvão e Quim Amaral. Nomes como Nito Saraiva, Baião, Zé Keno e Belmiro Carlos, todos solistas, Carlos Aniceto Vieira Dias (também conhecido como Liceu Vieira Dias), Didinho, Raul Tolingas, Vininho e Tinito: Weba, Belita Palma que foi temporariamente vocalista do conjunto, e Teta Lando, fizeram também parte dos África Show.

Embora fundado no bairro Indígena, o Conjunto sempre ensaiou no Marçal, primeiro em casa de um amigo e posteriormente em casa de Massano Júnior.

O conjunto viajou três vezes para Portugal, tendo gravado todos os seus LP pela Valentim de Carvalho, tornando-se em determinada altura em conjunto privativo da editora.

África Show acompanhou vários artistas durante a sua vigência. Gravou com artistas como Zé Viola, Urbano de Castro, Óscar Neves, António dos Santos, Quim dos Santos, Elias Dia Kumuezo, Duo Mumulha, entre outros. A sua linha melódica estava mais virada para o lado sentimental, sem descorar o semba.

Os N’Goma Jazz formaram-se em 1964 por Caetano de Lemos, Sebastião Matomona, Mangololo, Domingos Ferreira, Garcia Kapioto, Zé Manuel e Augusto Pedro, e foram considerados um dos melhores grupos dos anos 70. Acompanharam também, entre outros, Urbano de Castro. São também referência desta época os grupos Os Kiezos e os N’Gola Ritmos.

Alguns dos cantores destes grupos notabilizaram-se como solistas. Carlos Lamartine iniciou sua carreira artística em 1956 como « crooner », cantando para distintas turmas da capital angolana, até 1958. Foi posteriormente percussionista no grupo liderado por Sousa Júnior. Criou a turma «Macocos do Ritmo», e foi vocalista dos «Águias Reais». Os Águias Reais introduziram os instrumentos de sopro no seu conjunto, sendo um dos primeiros grupos a fazê-lo. Com Barceló de Carvalho (Bonga), outro insigne da música angolana, fundou «Os Kissueia» nos anos 60, no bairro do Marçal. Kissueia é uma palavra kimbundo que se refere à miséria dos bairros pobres.

Os Kissueia faziam parte dos músicos nacionalistas que cantavam a mensagem sobre a necessidade do alcance da independência. Contavam com o apoio do povo e muitos sofreram perseguições e represálias do sistema vigente. Nos cantores de intervenção, merecem ainda destaque os casos de Belita Palma, Minguito, Artur Nunes, Luís Visconde, Sofia Rosa, Mestre Geraldo e Maestro Liceu Vieira Dias (Carlos Aniceto Vieira Dias), entre outros.

O Maestro Liceu Vieira Dias é considerado o pai da música popular angolana. Numa base de violas acústicas, introduz a dikanza (reco reco) e as n\’gomas (tambores de conga) nas suas canções. O seu som torna-se popular na década de 50, nas áreas urbanas, onde a audiência é favorável à sua mensagem politizada e aos primeiros pensamentos nacionalistas.

Mário Silva, vocalista da Banda Kissanguela foi autor de canções de referência no anos 50, 60 e 70, com dois singles editados em 1973: “Maza” e “Bossa do Violão”. Foi contemporâneo de Santos Júnior, Artur Adriano e Filipe Mukenga.

Artur Adriano teve em “Belita” a maior referência do seu repertório. “Kalumba” é também um clássico. Artur Adriano compôs músicas em que exaltou a beleza feminina, ocorrências do quotidiano do musseque, num processo de integração musical consubstanciado nos valores da cultura nacional.

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